domingo, 6 de novembro de 2011

O Terror

Poucos minutos depois da meia-noite, um redemoinho começou no céu e onze asas brotaram de seu centro, brilhando como o alvorecer. Elas tocaram o chão e toda a vida na Terra temporariamente se exauriu. Árvores murcharam, campos secaram, águas amargaram e animais morreram. As pessoas que por azar presenciaram o fenômeno sucumbiram à loucura. Questionadas, algumas relataram a aparição de uma face, no centro do redemoinho, ordenando resignação, instantes antes das asas se dobrarem como as patas de uma aranha morta e tudo parecer estranhamente voltar à normalidade.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

- Prometa que nunca será um covarde! – exigiu Júlio Rídder ao filho de sete anos.
- Mas por quê? – perguntou a criança.
- Somente prometa...
- Nunca serei um covarde! - respondeu Pedro.
Júlio sorriu. O garoto viu seu pai acenar para ele e ir em direção aos quartos pelo corredor da sala. Pedro encarou o sol poente pela janela do apartamento e um mau presságio lhe veio junto a uma brisa que balançou as cortinas. Imediatamente ele correu para o fim do corredor. Quando alcançou o quarto de casal, avistou seu pai parado próximo à cama. Seus olhares se encontraram e o som de um disparo ecoou em seguida, no instante em que Júlio Rídder se suicidou ao atirar contra a própria cabeça, caindo num baque surdo na frente do único filho.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Eleonora

Disseram que o fantasma dele ainda vivia na memória dela, mesmo depois de muito tempo. Seu corpo havia sido enterrado a quilômetros e todas as suas coisas foram queimadas. “A liberdade foi tão efêmera” suspirou Eleonora. A morte dele foi como o efeito passageiro de uma droga que a permitiu sentir-se livre pela primeira vez em anos. Mas a rotina voltou. Não estava morto em seus pensamentos. Enquanto alguém soubesse seu nome, ele ainda vivia. O nome fora proibido de ser dito! Sua lembrança era como uma chama bruxuleante que renascia como uma fogueira toda vez que alguém o mencionava. Suicídio? Sim, ela pensou. Mas não teria solução. Ele agora vivia nos dois mundos ao mesmo tempo! Não havia para onde ir. A morte não o apagará e a vida ainda lhe trazia, tarde da noite, para lhe dizer:

- Boa noite...

domingo, 16 de março de 2008

Satisfação

O sangue escorria como um vinho escuro e encorpado pelo carpete, brotando da ferida provocada pelo punhal encravado no peito do corpo ali caído. Talvez, naquele instante, muitos humanos sentissem algum tipo de remorso ou medo, mas a única coisa que passou pela mente de Marco era que ele teria problemas se fosse encontrado naquela casa.

Então, retirou seu punhal num único puxão, guardou-o em sua bolsa de couro preto e andou às pressas em direção à janela ainda aberta. A luz da lua cheia jazia sobre os móveis ao redor, iluminando o espaço vazio onde deveria conter os utensílios de prata e ouro roubados por ele ainda pouco. Não eram grandes coisas, mas seus lucros renderiam um bom sustento durante o mês que se iniciava.

Marco ajeitou a capa preta sobre os ombros e vestiu seu capuz. Subiu no batente da janela, lançou um olhar furtivo nas casas vizinhas e saltou. Se alguém o tivesse visto saltando de uma altura daquelas, certamente o acusaria de bruxaria, e com razão, porque qualquer humano normal não agüentaria facilmente uma queda livre de 6 metros, ainda mais um garoto.

A noite estava fria e uma neblina fina rondava os arbustos e árvores do jardim. Marco segurou bem forte sua bolsa contra o peito antes de pular sobre o portão de ferro e cair na rua deserta e pessimamente iluminada. Um sorriso de satisfação cortou todo o clima tenso que a recente morte lhe passara enquanto corria pelas sombras. Aquilo não foi um assassinato, já que o homem avançara sobre ele, querendo agredi-lo, quando o vira roubar os objetos valiosos sobre a mesa. O que ele fez foi, simplesmente, se defender. Encarava o que ocorreu como um nítido exemplo de sobrevivência. Também não havia sido a primeira vez que ele matara alguém; poderia até dizer que já estava se acostumando com a idéia.

sábado, 15 de março de 2008

Fragmento II

- Eu não disse que nada existe, apenas que não acredito em nada.

O professor aprumou-se em sua cadeira, observando o adolescente de cabelos castanhos avermelhados sentado à sua frente. O garoto manteve o mesmo olhar indiferente durante os segundos que se passaram na sala regados ao tique-taque incansável do relógio de madeira sobre a mesa.

- Mas não foi isso que eu pedi na redação, senhor Arthur. – retrucou o professor formalmente – Pedi que vocês argumentassem sobre a visão que possuem do divino sem se basear em teorias ateias ou agnósticas.

- Como posso argumentar sobre algo que para mim é irreal?

- Como pode afirmar que é irreal?

- Da mesma maneira que vocês afirmam que é real. Para mim, o mundo é completa matéria, plena de dor. Se existe algum Deus, não pode ser bom, por permitir tais coisas; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode ser Deus.

- Sinto muito... – lamentou o professor, ainda nivelando o olhar à altura dos olhos interrogáveis do garoto – mas terei que desconsiderar essa tarefa.

- O objetivo dessa redação é nos converter às suas crenças ou nos mostrar a evolução dos conceitos religiosos?

- O objetivo é o de ser cumprida da maneira que foi solicitada.

O professor apanhou a redação sobre a mesa e leu um trecho grifado.

- “Suicidas são corajosos, e não covardes como muitos dizem, pois possuem a audácia de encarar um mundo do qual a maioria teme. Todos nascem parar morrer, viver seria atrasar esse momento...”.

Arthur continuou encarando o professor displicentemente, aguardando.

- Isto é uma apologia ao suicídio, não concorda?

- Não, é apenas a minha visão do suicídio. Quem usar isso como base para se matar é porque não possui razões suficientes.

O professor pegou um bloco de notas dentro da gaveta de sua mesa, escreveu meia dúzia de palavras nele e arrancou a folha.

- Quero que me faça um resumo dos capítulos 3 a 17 desse livro para a próxima semana... – Arthur recebeu o papel e o guardou no bolso sem ler.

- Como quiser – assentiu, e retirou-se da sala.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fragmento

Quando as luzes se apagaram e as sombras se uniram ao enorme espectro negro que emergiu do chão, um rugido invadiu o salão e varreu a alegria como uma onda negativa. Todos baixaram as taças que ainda pouco ergueram para celebrar os quinze anos do príncipe e olharam para a figura que abrira as longas asas de morcego sob suas cabeças.

- O que é isso, pai? – indagou o príncipe de cabelos muito negros, sentado na poltrona entre a do rei e a da rainha – É alguma apresentação?

Então os gritos responderam à sua pergunta. Os olhos do espectro brilharam num vermelho intenso, e ainda mais vermelho foi o jorro de fogo que ele lançou sobre algumas pessoas, queimando aquelas que não conseguiram fugir como se fossem feitas de papel.

A multidão se apavorou. Algumas portas do salão se trancaram sozinhas e a maioria das janelas parecia estar emperrada por uma força que não fraquejava aos esforços de todos em tentar vencê-la.

- O que está acontecendo?! – perguntou o príncipe.

O olhar do rei não era de medo, mas de surpresa.

- A maldição... – respondeu ele quase que só para si - é verdadeira.

O rei não disse mais nada por alguns segundos. Apenas observou o que ocorria à sua frente; o fogo dominando pouco a pouco o salão que já se assemelhava a um pequeno inferno. Ele voltou a si, de repente, quando o espectro rugiu com mais cólera e causou uma ventania ao bater as asas.

- Giovanni! Fuja! - ordenou ao filho - Você não pode ficar aqui!

- O que está acontecendo, afinal?

- Ele vai te matar se não fugir! - berrou a rainha ao se levantar - A maldição não irá embora enquanto...

O dragão rugiu e se voltou para a família real. Vestígios de fogo exalavam de sua boca semi-aberta. Giovanni viu seus olhos faiscarem quando sua visão caiu sobre ele. Então, um novo jorro de fogo foi conjurado. Seu pai o empurrou para trás com força e se pôs na sua frente, abrindo os braços para protegê-lo.

Giovanni o viu se desintegrar na sua frente como poeira, envolvido nas chamas que o espectro lançara. O garoto correu para um corredor próximo no instante seguinte. Correu o mais rápido que pode, esbarrando nas pessoas que tentavam se salvar, enquanto muitas outras ficavam para trás; seus gritos ecoando cada vez mais fracos, abafados pelo fogo que devorava seus corpos.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Carmen

Carmen se casou um dia após eu a pedir em casamento. Ainda ouço o badalar dos sinos da igreja anunciando o falecimento do único sentimento bom que já havia sido concebido dentro de mim.
Uma garrafa e onze cigarros me fizeram companhia na noite seguinte, enquanto eu atirava na lareira todas as cartas que havia recebido da única pessoa que amei e odiei em minha vida. O cheiro de queimado invadiu a casa sem que eu o notasse. As chamas tão vermelhas quanto as do inferno dançaram comigo. Dei três vivas ao mundo antes de deixá-lo e minha risada ecoou até o último cômodo da casa desaparecer.
Dez invernos se passaram. Carmen agora era mãe de um lindo garoto de cabelos muito loiros, como os de um anjo, muitos diziam. O garoto adorava escapar de seu olhar quando iam passear, explorando lugares mais distantes. Ao lado do parque principal que sempre visitavam, havia um vasto cemitério. Carmen o encontrou três vezes brincando em cima de um túmulo já sem nome. Por causa disso, ficaram uma semana sem sair de casa como castigo.
Numa tarde fria e chuvosa, dessas que fazem o dia anoitecer, Carmen se retirara mais cedo para o seu quarto. Três batidas soaram na porta quando ela já havia lido dois capítulos do seu livro favorito. Sem se levantar da cama, ela ordenou que a pessoa entrasse.
- O que foi dessa vez, Gabriel?
Seu filho ficou parado próximo à porta. Ela pôs o livro de lado e fez um gesto para que ele se aproximasse.
- Mãe...
- Sim?
- Para onde nós vamos quando morremos?
- As pessoas boas vão para o Céu.
- Se vamos para o Céu, por que todas as criaturas temem morrer?
- Gabriel.. eu não sei...
- Eu acho que sei...
- Então por quê?
O garoto sorriu; e era o mesmo sorriso que tantas vezes havia sido dirigido a Carmen por outro homem, precedido de juras de amor.
- Porque talvez elas saibam, inconscientemente, que o lugar de onde vieram pode ser pior que este.
E, após responder, derrubou uma das velas do criado-mudo sobre as cobertas da mãe. As chamas logo devoraram toda a cama, como se queimassem com ódio, deixando o resto do quarto intacto. O gargalhar do garoto abafou os gritos da mulher que sumia em meio ao fogo, sem poder se levantar, enquanto eu, próximo à janela, assistia a tudo fumando prazeirosamente um longo cigarro.

Bem-vinda ao meu mundo... amor.