segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

- Prometa que nunca será um covarde! – exigiu Júlio Rídder ao filho de sete anos.
- Mas por quê? – perguntou a criança.
- Somente prometa...
- Nunca serei um covarde! - respondeu Pedro.
Júlio sorriu. O garoto viu seu pai acenar para ele e ir em direção aos quartos pelo corredor da sala. Pedro encarou o sol poente pela janela do apartamento e um mau presságio lhe veio junto a uma brisa que balançou as cortinas. Imediatamente ele correu para o fim do corredor. Quando alcançou o quarto de casal, avistou seu pai parado próximo à cama. Seus olhares se encontraram e o som de um disparo ecoou em seguida, no instante em que Júlio Rídder se suicidou ao atirar contra a própria cabeça, caindo num baque surdo na frente do único filho.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Eleonora

Disseram que o fantasma dele ainda vivia na memória dela, mesmo depois de muito tempo. Seu corpo havia sido enterrado a quilômetros e todas as suas coisas foram queimadas. “A liberdade foi tão efêmera” suspirou Eleonora. A morte dele foi como o efeito passageiro de uma droga que a permitiu sentir-se livre pela primeira vez em anos. Mas a rotina voltou. Não estava morto em seus pensamentos. Enquanto alguém soubesse seu nome, ele ainda vivia. O nome fora proibido de ser dito! Sua lembrança era como uma chama bruxuleante que renascia como uma fogueira toda vez que alguém o mencionava. Suicídio? Sim, ela pensou. Mas não teria solução. Ele agora vivia nos dois mundos ao mesmo tempo! Não havia para onde ir. A morte não o apagará e a vida ainda lhe trazia, tarde da noite, para lhe dizer:

- Boa noite...

domingo, 16 de março de 2008

Satisfação

O sangue escorria como um vinho escuro e encorpado pelo carpete, brotando da ferida provocada pelo punhal encravado no peito do corpo ali caído. Talvez, naquele instante, muitos humanos sentissem algum tipo de remorso ou medo, mas a única coisa que passou pela mente de Marco era que ele teria problemas se fosse encontrado naquela casa.

Então, retirou seu punhal num único puxão, guardou-o em sua bolsa de couro preto e andou às pressas em direção à janela ainda aberta. A luz da lua cheia jazia sobre os móveis ao redor, iluminando o espaço vazio onde deveria conter os utensílios de prata e ouro roubados por ele ainda pouco. Não eram grandes coisas, mas seus lucros renderiam um bom sustento durante o mês que se iniciava.

Marco ajeitou a capa preta sobre os ombros e vestiu seu capuz. Subiu no batente da janela, lançou um olhar furtivo nas casas vizinhas e saltou. Se alguém o tivesse visto saltando de uma altura daquelas, certamente o acusaria de bruxaria, e com razão, porque qualquer humano normal não agüentaria facilmente uma queda livre de 6 metros, ainda mais um garoto.

A noite estava fria e uma neblina fina rondava os arbustos e árvores do jardim. Marco segurou bem forte sua bolsa contra o peito antes de pular sobre o portão de ferro e cair na rua deserta e pessimamente iluminada. Um sorriso de satisfação cortou todo o clima tenso que a recente morte lhe passara enquanto corria pelas sombras. Aquilo não foi um assassinato, já que o homem avançara sobre ele, querendo agredi-lo, quando o vira roubar os objetos valiosos sobre a mesa. O que ele fez foi, simplesmente, se defender. Encarava o que ocorreu como um nítido exemplo de sobrevivência. Também não havia sido a primeira vez que ele matara alguém; poderia até dizer que já estava se acostumando com a idéia.

sábado, 15 de março de 2008

Fragmento II

- Eu não disse que nada existe, apenas que não acredito em nada.

O professor aprumou-se em sua cadeira, observando o adolescente de cabelos castanhos avermelhados sentado à sua frente. O garoto manteve o mesmo olhar indiferente durante os segundos que se passaram na sala regados ao tique-taque incansável do relógio de madeira sobre a mesa.

- Mas não foi isso que eu pedi na redação, senhor Arthur. – retrucou o professor formalmente – Pedi que vocês argumentassem sobre a visão que possuem do divino sem se basear em teorias ateias ou agnósticas.

- Como posso argumentar sobre algo que para mim é irreal?

- Como pode afirmar que é irreal?

- Da mesma maneira que vocês afirmam que é real. Para mim, o mundo é completa matéria, plena de dor. Se existe algum Deus, não pode ser bom, por permitir tais coisas; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode ser Deus.

- Sinto muito... – lamentou o professor, ainda nivelando o olhar à altura dos olhos interrogáveis do garoto – mas terei que desconsiderar essa tarefa.

- O objetivo dessa redação é nos converter às suas crenças ou nos mostrar a evolução dos conceitos religiosos?

- O objetivo é o de ser cumprida da maneira que foi solicitada.

O professor apanhou a redação sobre a mesa e leu um trecho grifado.

- “Suicidas são corajosos, e não covardes como muitos dizem, pois possuem a audácia de encarar um mundo do qual a maioria teme. Todos nascem parar morrer, viver seria atrasar esse momento...”.

Arthur continuou encarando o professor displicentemente, aguardando.

- Isto é uma apologia ao suicídio, não concorda?

- Não, é apenas a minha visão do suicídio. Quem usar isso como base para se matar é porque não possui razões suficientes.

O professor pegou um bloco de notas dentro da gaveta de sua mesa, escreveu meia dúzia de palavras nele e arrancou a folha.

- Quero que me faça um resumo dos capítulos 3 a 17 desse livro para a próxima semana... – Arthur recebeu o papel e o guardou no bolso sem ler.

- Como quiser – assentiu, e retirou-se da sala.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fragmento

Quando as luzes se apagaram e as sombras se uniram ao enorme espectro negro que emergiu do chão, um rugido invadiu o salão e varreu a alegria como uma onda negativa. Todos baixaram as taças que ainda pouco ergueram para celebrar os quinze anos do príncipe e olharam para a figura que abrira as longas asas de morcego sob suas cabeças.

- O que é isso, pai? – indagou o príncipe de cabelos muito negros, sentado na poltrona entre a do rei e a da rainha – É alguma apresentação?

Então os gritos responderam à sua pergunta. Os olhos do espectro brilharam num vermelho intenso, e ainda mais vermelho foi o jorro de fogo que ele lançou sobre algumas pessoas, queimando aquelas que não conseguiram fugir como se fossem feitas de papel.

A multidão se apavorou. Algumas portas do salão se trancaram sozinhas e a maioria das janelas parecia estar emperrada por uma força que não fraquejava aos esforços de todos em tentar vencê-la.

- O que está acontecendo?! – perguntou o príncipe.

O olhar do rei não era de medo, mas de surpresa.

- A maldição... – respondeu ele quase que só para si - é verdadeira.

O rei não disse mais nada por alguns segundos. Apenas observou o que ocorria à sua frente; o fogo dominando pouco a pouco o salão que já se assemelhava a um pequeno inferno. Ele voltou a si, de repente, quando o espectro rugiu com mais cólera e causou uma ventania ao bater as asas.

- Giovanni! Fuja! - ordenou ao filho - Você não pode ficar aqui!

- O que está acontecendo, afinal?

- Ele vai te matar se não fugir! - berrou a rainha ao se levantar - A maldição não irá embora enquanto...

O dragão rugiu e se voltou para a família real. Vestígios de fogo exalavam de sua boca semi-aberta. Giovanni viu seus olhos faiscarem quando sua visão caiu sobre ele. Então, um novo jorro de fogo foi conjurado. Seu pai o empurrou para trás com força e se pôs na sua frente, abrindo os braços para protegê-lo.

Giovanni o viu se desintegrar na sua frente como poeira, envolvido nas chamas que o espectro lançara. O garoto correu para um corredor próximo no instante seguinte. Correu o mais rápido que pode, esbarrando nas pessoas que tentavam se salvar, enquanto muitas outras ficavam para trás; seus gritos ecoando cada vez mais fracos, abafados pelo fogo que devorava seus corpos.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Carmen

Carmen se casou um dia após eu a pedir em casamento. Ainda ouço o badalar dos sinos da igreja anunciando o falecimento do único sentimento bom que já havia sido concebido dentro de mim.
Uma garrafa e onze cigarros me fizeram companhia na noite seguinte, enquanto eu atirava na lareira todas as cartas que havia recebido da única pessoa que amei e odiei em minha vida. O cheiro de queimado invadiu a casa sem que eu o notasse. As chamas tão vermelhas quanto as do inferno dançaram comigo. Dei três vivas ao mundo antes de deixá-lo e minha risada ecoou até o último cômodo da casa desaparecer.
Dez invernos se passaram. Carmen agora era mãe de um lindo garoto de cabelos muito loiros, como os de um anjo, muitos diziam. O garoto adorava escapar de seu olhar quando iam passear, explorando lugares mais distantes. Ao lado do parque principal que sempre visitavam, havia um vasto cemitério. Carmen o encontrou três vezes brincando em cima de um túmulo já sem nome. Por causa disso, ficaram uma semana sem sair de casa como castigo.
Numa tarde fria e chuvosa, dessas que fazem o dia anoitecer, Carmen se retirara mais cedo para o seu quarto. Três batidas soaram na porta quando ela já havia lido dois capítulos do seu livro favorito. Sem se levantar da cama, ela ordenou que a pessoa entrasse.
- O que foi dessa vez, Gabriel?
Seu filho ficou parado próximo à porta. Ela pôs o livro de lado e fez um gesto para que ele se aproximasse.
- Mãe...
- Sim?
- Para onde nós vamos quando morremos?
- As pessoas boas vão para o Céu.
- Se vamos para o Céu, por que todas as criaturas temem morrer?
- Gabriel.. eu não sei...
- Eu acho que sei...
- Então por quê?
O garoto sorriu; e era o mesmo sorriso que tantas vezes havia sido dirigido a Carmen por outro homem, precedido de juras de amor.
- Porque talvez elas saibam, inconscientemente, que o lugar de onde vieram pode ser pior que este.
E, após responder, derrubou uma das velas do criado-mudo sobre as cobertas da mãe. As chamas logo devoraram toda a cama, como se queimassem com ódio, deixando o resto do quarto intacto. O gargalhar do garoto abafou os gritos da mulher que sumia em meio ao fogo, sem poder se levantar, enquanto eu, próximo à janela, assistia a tudo fumando prazeirosamente um longo cigarro.

Bem-vinda ao meu mundo... amor.

sábado, 17 de novembro de 2007

Sofia

Conheci Sofia em uma noite qualquer, sem brilho algum, nem lua havia no céu. Um bilhete com uma pergunta sua chegara até minha mesa nos fundos do bar, a mais escondida entre a neblina dos fumantes. Não fiquei surpreso, confesso, pois estava ciente de que algo me envolvia naquela noite, como um lúbrico perfume, tornando-me tão sedutor quanto uma chama no inverno. E, como muitas ali, aquela moça podia sentir meu aroma no ar, penetrando em suas veias e correndo junto ao seu sangue como um vírus, adoecendo-a com o meu encanto.
Rabisquei uma resposta no próprio bilhete, terminei minha bebida e levantei-me. Com o sorriso da conquista nos lábios, deixei o papel cair sobre a mesa de Sofia ao passar ao seu lado, sem olhá-la, e retirei-me do bar. A dama não se demorou a sair também, coberta por um longo casaco negro que contrastava violentamente com sua pele muito alva. Sua beleza era fora dos padrões, totalmente peculiar, assim como sua voz, galante e persuasiva; as mesmas palavras não seriam tão belas ditas por outra pessoa. Simplesmente não pude negar o que Sofia me propunha, seria um pecado mortal abster-se dos seus desejos.
Hipnotizado pelo amor à primeira vista, eu a acompanhei até sua casa, obedientemente, e já estava deitado em sua cama quando meus sentidos revivesceram. Uma por uma, minhas fantasias iam sendo libertadas através de seus beijos, como se eles fossem chaves que abriam os muitos cadeados dentro de mim. Tudo parecia uma realidade clandestina, um sonho nunca idealizado, e eu não sabia responder se estava feliz ou não.
Quando Sofia finalmente se levantou, graciosamente iluminada pela chama das velas, eu me aprumei na cama para acariciar seus cabelos. Mas ela segurou minha mão. Suas palavras agora eram frias e pontiagudas como facas, não havia mais calor em seu toque, o feitiço perdeu seu efeito e a realidade voltou a ser concreta. O que Sofia me disse guiara-me de volta ao meu lar e permanecera ao meu lado por muitos anos, como um fantasma que eu jurava já ter exorcizado; um pesadelo infantil, que renascia e me assombrava enquanto todos os meus medos maduros dormiam.

Eu te amo, querido... você e muitos outros...