Conheci Sofia em uma noite qualquer, sem brilho algum, nem lua havia no céu. Um bilhete com uma pergunta sua chegara até minha mesa nos fundos do bar, a mais escondida entre a neblina dos fumantes. Não fiquei surpreso, confesso, pois estava ciente de que algo me envolvia naquela noite, como um lúbrico perfume, tornando-me tão sedutor quanto uma chama no inverno. E, como muitas ali, aquela moça podia sentir meu aroma no ar, penetrando em suas veias e correndo junto ao seu sangue como um vírus, adoecendo-a com o meu encanto.
Rabisquei uma resposta no próprio bilhete, terminei minha bebida e levantei-me. Com o sorriso da conquista nos lábios, deixei o papel cair sobre a mesa de Sofia ao passar ao seu lado, sem olhá-la, e retirei-me do bar. A dama não se demorou a sair também, coberta por um longo casaco negro que contrastava violentamente com sua pele muito alva. Sua beleza era fora dos padrões, totalmente peculiar, assim como sua voz, galante e persuasiva; as mesmas palavras não seriam tão belas ditas por outra pessoa. Simplesmente não pude negar o que Sofia me propunha, seria um pecado mortal abster-se dos seus desejos.
Hipnotizado pelo amor à primeira vista, eu a acompanhei até sua casa, obedientemente, e já estava deitado em sua cama quando meus sentidos revivesceram. Uma por uma, minhas fantasias iam sendo libertadas através de seus beijos, como se eles fossem chaves que abriam os muitos cadeados dentro de mim. Tudo parecia uma realidade clandestina, um sonho nunca idealizado, e eu não sabia responder se estava feliz ou não.
Quando Sofia finalmente se levantou, graciosamente iluminada pela chama das velas, eu me aprumei na cama para acariciar seus cabelos. Mas ela segurou minha mão. Suas palavras agora eram frias e pontiagudas como facas, não havia mais calor em seu toque, o feitiço perdeu seu efeito e a realidade voltou a ser concreta. O que Sofia me disse guiara-me de volta ao meu lar e permanecera ao meu lado por muitos anos, como um fantasma que eu jurava já ter exorcizado; um pesadelo infantil, que renascia e me assombrava enquanto todos os meus medos maduros dormiam.
Eu te amo, querido... você e muitos outros...
Eu te amo, querido... você e muitos outros...
