quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Carmen

Carmen se casou um dia após eu a pedir em casamento. Ainda ouço o badalar dos sinos da igreja anunciando o falecimento do único sentimento bom que já havia sido concebido dentro de mim.
Uma garrafa e onze cigarros me fizeram companhia na noite seguinte, enquanto eu atirava na lareira todas as cartas que havia recebido da única pessoa que amei e odiei em minha vida. O cheiro de queimado invadiu a casa sem que eu o notasse. As chamas tão vermelhas quanto as do inferno dançaram comigo. Dei três vivas ao mundo antes de deixá-lo e minha risada ecoou até o último cômodo da casa desaparecer.
Dez invernos se passaram. Carmen agora era mãe de um lindo garoto de cabelos muito loiros, como os de um anjo, muitos diziam. O garoto adorava escapar de seu olhar quando iam passear, explorando lugares mais distantes. Ao lado do parque principal que sempre visitavam, havia um vasto cemitério. Carmen o encontrou três vezes brincando em cima de um túmulo já sem nome. Por causa disso, ficaram uma semana sem sair de casa como castigo.
Numa tarde fria e chuvosa, dessas que fazem o dia anoitecer, Carmen se retirara mais cedo para o seu quarto. Três batidas soaram na porta quando ela já havia lido dois capítulos do seu livro favorito. Sem se levantar da cama, ela ordenou que a pessoa entrasse.
- O que foi dessa vez, Gabriel?
Seu filho ficou parado próximo à porta. Ela pôs o livro de lado e fez um gesto para que ele se aproximasse.
- Mãe...
- Sim?
- Para onde nós vamos quando morremos?
- As pessoas boas vão para o Céu.
- Se vamos para o Céu, por que todas as criaturas temem morrer?
- Gabriel.. eu não sei...
- Eu acho que sei...
- Então por quê?
O garoto sorriu; e era o mesmo sorriso que tantas vezes havia sido dirigido a Carmen por outro homem, precedido de juras de amor.
- Porque talvez elas saibam, inconscientemente, que o lugar de onde vieram pode ser pior que este.
E, após responder, derrubou uma das velas do criado-mudo sobre as cobertas da mãe. As chamas logo devoraram toda a cama, como se queimassem com ódio, deixando o resto do quarto intacto. O gargalhar do garoto abafou os gritos da mulher que sumia em meio ao fogo, sem poder se levantar, enquanto eu, próximo à janela, assistia a tudo fumando prazeirosamente um longo cigarro.

Bem-vinda ao meu mundo... amor.