- Eu não disse que nada existe, apenas que não acredito em nada.
O professor aprumou-se em sua cadeira, observando o adolescente de cabelos castanhos avermelhados sentado à sua frente. O garoto manteve o mesmo olhar indiferente durante os segundos que se passaram na sala regados ao tique-taque incansável do relógio de madeira sobre a mesa.
- Mas não foi isso que eu pedi na redação, senhor Arthur. – retrucou o professor formalmente – Pedi que vocês argumentassem sobre a visão que possuem do divino sem se basear em teorias ateias ou agnósticas.
- Como posso argumentar sobre algo que para mim é irreal?
- Como pode afirmar que é irreal?
- Da mesma maneira que vocês afirmam que é real. Para mim, o mundo é completa matéria, plena de dor. Se existe algum Deus, não pode ser bom, por permitir tais coisas; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode ser Deus.
- Sinto muito... – lamentou o professor, ainda nivelando o olhar à altura dos olhos interrogáveis do garoto – mas terei que desconsiderar essa tarefa.
- O objetivo dessa redação é nos converter às suas crenças ou nos mostrar a evolução dos conceitos religiosos?
- O objetivo é o de ser cumprida da maneira que foi solicitada.
O professor apanhou a redação sobre a mesa e leu um trecho grifado.
- “Suicidas são corajosos, e não covardes como muitos dizem, pois possuem a audácia de encarar um mundo do qual a maioria teme. Todos nascem parar morrer, viver seria atrasar esse momento...”.
Arthur continuou encarando o professor displicentemente, aguardando.
- Isto é uma apologia ao suicídio, não concorda?
- Não, é apenas a minha visão do suicídio. Quem usar isso como base para se matar é porque não possui razões suficientes.
O professor pegou um bloco de notas dentro da gaveta de sua mesa, escreveu meia dúzia de palavras nele e arrancou a folha.
- Quero que me faça um resumo dos capítulos 3 a 17 desse livro para a próxima semana... – Arthur recebeu o papel e o guardou no bolso sem ler.
- Como quiser – assentiu, e retirou-se da sala.