O sangue escorria como um vinho escuro e encorpado pelo carpete, brotando da ferida provocada pelo punhal encravado no peito do corpo ali caído. Talvez, naquele instante, muitos humanos sentissem algum tipo de remorso ou medo, mas a única coisa que passou pela mente de Marco era que ele teria problemas se fosse encontrado naquela casa.
Então, retirou seu punhal num único puxão, guardou-o em sua bolsa de couro preto e andou às pressas em direção à janela ainda aberta. A luz da lua cheia jazia sobre os móveis ao redor, iluminando o espaço vazio onde deveria conter os utensílios de prata e ouro roubados por ele ainda pouco. Não eram grandes coisas, mas seus lucros renderiam um bom sustento durante o mês que se iniciava.
Marco ajeitou a capa preta sobre os ombros e vestiu seu capuz. Subiu no batente da janela, lançou um olhar furtivo nas casas vizinhas e saltou. Se alguém o tivesse visto saltando de uma altura daquelas, certamente o acusaria de bruxaria, e com razão, porque qualquer humano normal não agüentaria facilmente uma queda livre de 6 metros, ainda mais um garoto.
A noite estava fria e uma neblina fina rondava os arbustos e árvores do jardim. Marco segurou bem forte sua bolsa contra o peito antes de pular sobre o portão de ferro e cair na rua deserta e pessimamente iluminada. Um sorriso de satisfação cortou todo o clima tenso que a recente morte lhe passara enquanto corria pelas sombras. Aquilo não foi um assassinato, já que o homem avançara sobre ele, querendo agredi-lo, quando o vira roubar os objetos valiosos sobre a mesa. O que ele fez foi, simplesmente, se defender. Encarava o que ocorreu como um nítido exemplo de sobrevivência. Também não havia sido a primeira vez que ele matara alguém; poderia até dizer que já estava se acostumando com a idéia.
