domingo, 16 de março de 2008

Satisfação

O sangue escorria como um vinho escuro e encorpado pelo carpete, brotando da ferida provocada pelo punhal encravado no peito do corpo ali caído. Talvez, naquele instante, muitos humanos sentissem algum tipo de remorso ou medo, mas a única coisa que passou pela mente de Marco era que ele teria problemas se fosse encontrado naquela casa.

Então, retirou seu punhal num único puxão, guardou-o em sua bolsa de couro preto e andou às pressas em direção à janela ainda aberta. A luz da lua cheia jazia sobre os móveis ao redor, iluminando o espaço vazio onde deveria conter os utensílios de prata e ouro roubados por ele ainda pouco. Não eram grandes coisas, mas seus lucros renderiam um bom sustento durante o mês que se iniciava.

Marco ajeitou a capa preta sobre os ombros e vestiu seu capuz. Subiu no batente da janela, lançou um olhar furtivo nas casas vizinhas e saltou. Se alguém o tivesse visto saltando de uma altura daquelas, certamente o acusaria de bruxaria, e com razão, porque qualquer humano normal não agüentaria facilmente uma queda livre de 6 metros, ainda mais um garoto.

A noite estava fria e uma neblina fina rondava os arbustos e árvores do jardim. Marco segurou bem forte sua bolsa contra o peito antes de pular sobre o portão de ferro e cair na rua deserta e pessimamente iluminada. Um sorriso de satisfação cortou todo o clima tenso que a recente morte lhe passara enquanto corria pelas sombras. Aquilo não foi um assassinato, já que o homem avançara sobre ele, querendo agredi-lo, quando o vira roubar os objetos valiosos sobre a mesa. O que ele fez foi, simplesmente, se defender. Encarava o que ocorreu como um nítido exemplo de sobrevivência. Também não havia sido a primeira vez que ele matara alguém; poderia até dizer que já estava se acostumando com a idéia.

sábado, 15 de março de 2008

Fragmento II

- Eu não disse que nada existe, apenas que não acredito em nada.

O professor aprumou-se em sua cadeira, observando o adolescente de cabelos castanhos avermelhados sentado à sua frente. O garoto manteve o mesmo olhar indiferente durante os segundos que se passaram na sala regados ao tique-taque incansável do relógio de madeira sobre a mesa.

- Mas não foi isso que eu pedi na redação, senhor Arthur. – retrucou o professor formalmente – Pedi que vocês argumentassem sobre a visão que possuem do divino sem se basear em teorias ateias ou agnósticas.

- Como posso argumentar sobre algo que para mim é irreal?

- Como pode afirmar que é irreal?

- Da mesma maneira que vocês afirmam que é real. Para mim, o mundo é completa matéria, plena de dor. Se existe algum Deus, não pode ser bom, por permitir tais coisas; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode ser Deus.

- Sinto muito... – lamentou o professor, ainda nivelando o olhar à altura dos olhos interrogáveis do garoto – mas terei que desconsiderar essa tarefa.

- O objetivo dessa redação é nos converter às suas crenças ou nos mostrar a evolução dos conceitos religiosos?

- O objetivo é o de ser cumprida da maneira que foi solicitada.

O professor apanhou a redação sobre a mesa e leu um trecho grifado.

- “Suicidas são corajosos, e não covardes como muitos dizem, pois possuem a audácia de encarar um mundo do qual a maioria teme. Todos nascem parar morrer, viver seria atrasar esse momento...”.

Arthur continuou encarando o professor displicentemente, aguardando.

- Isto é uma apologia ao suicídio, não concorda?

- Não, é apenas a minha visão do suicídio. Quem usar isso como base para se matar é porque não possui razões suficientes.

O professor pegou um bloco de notas dentro da gaveta de sua mesa, escreveu meia dúzia de palavras nele e arrancou a folha.

- Quero que me faça um resumo dos capítulos 3 a 17 desse livro para a próxima semana... – Arthur recebeu o papel e o guardou no bolso sem ler.

- Como quiser – assentiu, e retirou-se da sala.